Maior Bloco de Carnaval do Mundo

Cada vez tenho deixado mais de lado as disputas regionais. Acho que passou-se o tempo de ficar alimentando, por exemplo, as disputas entre Pernambuco e Bahia. É uma pauta que não avança em nada em nossas necessidades como povo brasileiro, mas enfim…
Assim como é importante fortalecer o movimento de resistência contra a imposição da cultura dos EUA (critiquei apenas a IMPOSIÇÃO, viu?), é preciso também ter um bom cuidado com relação às diferenças regionais do Brasil. Tal questão ganha força, inclusive, quando se tratam de modelos diferentes de manifestação da cultura popular, como vemos no carnaval, por exemplo.
É inegável a força que tem ganho o modelo de carnaval popular que ocorre, e sempre ocorreu, em Pernambuco. Mas sei que o modelo não é exclusivo. Assim como o samba não é carioca e nem baiano, como diz a música do Mundo Livre SA, o carnaval de rua não é de Pernambuco. Mas aqui ele é de forma hegemônica e não há quem possa refutar. 
Um fenômeno interessante que tem rolado é que este tipo de carnaval parece que tem ganho força no Rio de Janeiro. Uma festa que não nega as outras, mas que acontece na rua. Esta é a minha impressão. Inclusive não deve demorar para querer conhecer de perto esta realidade.
Mas o que não dá pra aceitar é ver a Globo dando a entender, por reiteradas vezes, que no bloco do Cordão da Bola Preta, no Rio de Janeiro, haviam mais pessoas que no Galo da Madrugada. Ora essa, não teria problema se assim o fosse. Aliás, não vejo nem vantagem em ter tanta gente assim no mesmo lugar. Porém precisamos trabalhar com fatos e com a realidade. Só pra se ter uma idéia dos números:
Cordão da Bola Preta – 4 trios elétricos e 240 policiais.
Galo da Madrugada – 26 trios elétricos e 4.740 policiais e bombeiros.

A diferença é gritante. Se fosse como nos espaços da UNE em que participei como estudante, não haveria nem contagem de crachá. Haveria definição por contraste. 😛
Mas deixa ir lá que só queria chamar atenção para o fato de que nem no carnaval devemos baixar a guarda da resistência contra esta grande mídia aí que, como sempre repito, presta um grande desserviço ao nosso país.

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Carnaval de Olinda e Recife

Nas últimas semanas pouco escrevi para o blog, como ja expliquei em postagem passada. Mas talvez seja a época do ano em que o blog receba mais visitas. E o motivo é claro: postagens que já fiz sobre Frevo e sobre o nosso carnaval. Isso é claro ao analisar as estatísticas.
Mas enfim… este ano não tinha feito nenhuma postagem ainda sobre carnaval. Farei agora. Pequenas análises.
De uma maneira em geral é preciso ficar claro que o nosso carnaval tem ficado melhor ano a ano.
O incentivo a descentralização em Recife, depois seguido por Olinda e Governo do Estado, é uma das políticas responsáveis pela retomada do nosso carnaval. A semana “pré”, bancada pelo Governo Estadual em Olinda, é uma excelente iniciativa.
Houve claramente uma profissionalização na forma de encarar o nosso carnaval. Acho que na questão da segurança houve um bom avanço. Pude percorrer todo o Galo da Madrugada e não observei uma briga sequer. Nem nos outros dias. Sinto que a divulgação também tem aumentado. O que tem resultado em um bom aumento na galera que vem de fora. Tanto para hoteis e pousadas, quanto para a casa de conhecidos, como é bem comum.
De negativo, ainda pesa a falta de banheiros. E na falta destes, muitas ruas ficam com cheiro de urina o tempo todo. É horrível. Além de ser um transtorno, em especial para as mulheres.
Outro ponto em que precisamos avançar, apesar de enorme melhora nos últimos anos, é na inovação de nossa música. E não que não se faça mais músicas de qualidade. Mas não há divulgação, nem nenhum trabalho nesse sentido. E vou mais além. Até das músicas antigas, ainda ficamos nos prendendo nas mesmas. Garanto que há muita música boa, antiga, mas que são ainda quase que desconhecidas. As orquestras e bandas com pequenas pesquisas podem levantar muita coisa boa.
Destaco a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério com o Maestro Forró. Tem apostado muito na inovação e fazem um show muito bonito de se ver e de se dançar. Mas a própria Orquestra do Spok, que tanto admiro, quase que nada inovou em 1 ano. Até as músicas de Chico Science que cantam são as mesmas (o que não é uma exclusividade).
Ahh. Senti um maior espaço para o frevo de bloco este ano. Inclusive na imprensa nacional. Contou para isso a homenagem da prefeitura a Getúlio Cavalcanti. Muito bom isso.
No mais, o nosso carnaval tá muito bom de se brincar. A propaganda com Marcelo Adnet, e participaçao do meu primo Jarbinhas, matou em cheio: Não dá pra curtir todo o carnaval em 4 dias. É muito carnaval pra pouco tempo!
Ficou para trás a época de comparar o carnaval da Bahia com o de Pernambuco. Não existe mais isso.

A Saudade da Pernambucanidade

Quando meu amigo Gaúcho chegou em Recife depois de um temporada em Uberlândia, terra de Natália, sua namorada, pedi que escrevesse algo para eu publicar no Propalando. Ele demorou um pouco, mas eis aqui o texto.

Teria sido uma experiência mais interessante caso ele tivesse passado alguns anos fora, mas não foi o caso… haha

Pois bem… Segue abaixo o texto. E aproveito para testar uma nova funcionalidade do blog. Para ler o texto completo é preciso clicar no ícone que aparece em formato de positivo ou cruz ou o que quer que seja.

A Saudade da Pernambucanidade

Passar um tempo longe destas terras me deu uma perspectiva diferente. Parece clichê, eu sei. É aquele velho papo de que se sente saudade das coisas quando se está longe. Porém, a saudade desta terra foi algo que ultrapassou o que se pode chamar de saudade.
Não foi apenas a saudade de uma terra, da família e dos amigos, mas sim de todo um conjunto de coisas que faz a Pernambucanidade. O povo, as ruas, as notícias, os problemas, as praias, as músicas, as chuvas inesperadas, os alagamentos, os debates, os revolucionários, os reacionários, enfim, tudo me deu saudade.

Não, não era a saudade de passear na praia de Boa Viagem e ver ostentado num arranha-céu o nome de um dos Coronéis que ainda reinam por estas bandas. Não, não era a saudade de andar por um centro de cultura capitalista (ou seja, cultura de dinheiro internacional) que muitos daqui arvoram ser o maior Shopping da América Latina. Não, não era a saudade de ver cerâmicas ou esculturas de mais uma família mandante. Não, não era saudade de ir pra boates que tocam músicas originadas em Londres ou Nova Iorque funcionando como mais uma correia de transmissão do Imperialismo da língua inglesa sobre nós, pobres latinoamericanos.
Era saudade do Forró! Me roí todinho assistindo pela televisão o São João de todo este Nordeste sabendo que de onde eu estava, a única manifestação parecida que eu vi foi uma dupla sertaneja cantando numa praça, com todo mundo sentadinho tomando seu quentão. Foi saudade desse rala-bucho gostoso, do suor dançante na testa, das letras que exaltam a cultura nordestina e os costumes destes que um dia hão de liderar a revolução brasileira.
Era saudade do nosso calorzinho morno! Era saudade do cuzcuz com salsicha, da macaxeira com charque, do queijo de coalho, da tapioca, de peixe de mar, de camarão, de sururu, de marisco, de inhame com ovo.
Era saudade dos mercados municipais! Acredite quem quiser, mas lá não se bebe em Mercado Municipal! Como assim, cara pálida???? Como não ter saudade de um Mercado da Madalena e seu arrumadinho? Como não ter saudade do Mercado da Boa vista e de sua cerveja gelada acompanhando um pirão?
Era saudade deste povo. Deste povo que se articula, deste povo que sonha, deste povo que luta, deste povo de luta! Deste povo herdeiro da Revolução Pernambucana, do patriotismo primo nestas terras brasileiras. Era saudade até dos reacionários, que, comparados com os de lá, quem diria, são considerados centristas.
Era saudade do nosso bairrismo. Era saudade da Bombonilha! Era saudade das ruas do Recife antigo, que remontam à épocas de velhas e novas dominações imperialistas, mas que aqui e acolá, vemos as marcas da Resistência, de um povo que não se deixa abater. Pixações e grafites, rua da Aurora, rua da Moeda, e tantas outras ruas do centro do meu recife.
Era saudade também dos cheiros de nossa terra. Este cheiro de mar, que só pelo cheiro me enche de Esperança Libertária, como se ele mesmo fosse responsável pelo sonho de liberdade desse povo. Era saudade do cheiro do mangue, que nos faz lembrar dia a dia que os homens e os caranguejos se misturam num ambiente, que um depende do outro pra sobreviver, e que se mantivermos as coisas como estão, um vai acabar virando o outro. Era saudade do cheiro acre da Agamenon Magalhães, uma chaga na face do Recife, ou melhor, vários dentes cariados, fétidos, que deixam à vista de quem quiser ver a imundície que a raça humana produz, e que joga direto no rio, que vai pro mar, que estes mesmos humanos se esbaldam no domingo….
Thiago Henrique (Gaúcho) – http://galinhacabidela.blogspot.com

Spok Frevo Orquestra na França

Em pleno clima de São João já há alguns dias instalado em Pernambuco, eis que venho aqui postar sobre… frevo! Poisé. Mais especificamente sobre a apresentação que a Spok Frevo Orquestra faz hoje no palácio do Sarkozy, presidente francês (prometo que não vou falar de política…hehe).

Pois bem. Hoje, 21 de junho, é o dia em que os franceses comemoram o Dia da Música e ocorre o Fête de la musique. E também é a data que marca o início do verão por aquelas bandas. É o solstício de verão. Em outras palavras, hoje só anoitece por volta das 22h.

E um dos pontos altos da comemoração é a festa que ocorre no Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês. A principal atração, e que encerra o show, é a Orquestra de Frevo do Spok, com apresentação marcada para as 18h. Após a exibição, os músicos serão recebidos para um jantar com o presidente e sua mulher, Carla Bruni.

Neste momento, eu peço uma pausa para um comentário machista. É que não há como não falar sobre o espetáculo de beleza que é esta primeira-dama francesa. Pouco conheço dela. Sei apenas que nasceu na Itália, foi modelo e depois cantora, com dois álbuns gravados. Mas é de uma beleza ímpar 🙂

Um violão (à esquerda) e Carla Bruni (à direita)

Mas deixa eu voltar ao tema da postagem…

Este show é um dos quase vinte que estão programados na Europa.
Semana passada rolou um festival de música nordestina brasileira, também na França, e eles, junto a Silvério Pessoa, Dj Dolores e a Orquestra do Fubá (não conheço), foram as atrações.

parte do cartaz do festival de música nordestina na França.

Um dos shows que ainda restam é no badalado Montreux Jazz Festival. Apresentam-se nos dias 13 e 14 de julho. Para mais informações, entre no sítio oficial do festival, clicando aqui.

E para ir finalizando, visto que a postagem já está por demais longa, um vídeo com um pequeno trecho da participação da Oquestra de Spok no festival de música nordestina que comentei acima. Nesta música, participação especial de Silvério Pessoa, figura ja conhecida e bem avaliada pela crítica francesa há um bom tempo.


Pelo que entendi, os responsáveis pelo vídeo são de uma produtora chamada OutroBrasil, que faz um trabalho exclusivo com a música brasileira na França.

Segundo suas próprias palavras, La musique et les images de tournées et concerts des artistes (et acteurs) de l’agence et label Outro Brasil. Nous sommes spécialisés dans la musique brésilienne contemporaine de qualité.

Chama a atenção a quantidade de artistas pernambucanos com a produtora. Entre eles Siba, Coco Raízes de Arcoverde, Eddie, etc.
Para curtir todos os vídeos de tal produtora, acesse aqui http://www.dailymotion.com/outrobrasil.

Em tempo: Para baixar músicas da Orquestra de Spok, entrar no link ao lado do, sempre recomendado, SomBarato.

Isso me lembra que estou devendo uma postagem sobre um probleminha envolvendo o SomBarato e uma gravadora. Devo também uma postagem sobre a cultura junina no nordeste brasileiro. Agora eu solto o famoso: “devo não nego, pago quando puder.”

Um abraço!

Frevos para baixar e Prêmio Cicarelli de Marketing

Bom pessoal,

Início de tarde. Ainda estudo um pouco mais e à noite logo cedo estou no Recife Antigo.
Mas tirei alguns minutos para dar uma dica e conceder um Prêmio Cicarelli de Marketing.

A dica diz respeito a dois ótimos blogs para quem quiser baixar muito Frevo.
São os blogs http://sombarato.blogspot.com (sempre aqui recomendado) e o http://ofrevo.blogspot.com

Façam ótimo proveito.

Quanto ao Prêmio, ele vai para a sempre polêmica ministra do Turismo, a Marta Suplicy, do Relaxa-e-Goza.
Pois bem. Ao ser questionada, em passagem pela Espanha, sobre a insegurança em nosso país, ela soltou um: “O Brasil pelo menos não tem terrorismo”. Já pensou??

É como disse o cara do http://surra.org:
“Com uma Ministra do Turismo dessas, quem precisa de terroristas?”

Bom Carnaval pra todas e todos!

FREVO DESEMBESTADO!

Nesta mesma época do ano passado vinha fazendo uma série de postagens sobre o carnaval.
Em 2008, ainda não entrei no clima “pesadamente” por assim dizer.
Avalio como fatores responsáveis por isto o ritmo de estudos e esta entrada no internato. Tenho buscado colocar muita coisa em dia e isto tem consumido bem o meu tempo.

Pois bem. Segue em anexo um texto do Prof. Luiz Gonzaga sobre o frevo. Grande rubro-negro e folião. E bom também com as palavras.

Bom carnaval pra todo mundo!

FREVO DESEMBESTADO!

Caros foliões, músicos, compositores e carnavalescos, há mais de 100 anos que uma cidade veste a indumentária da alegria. E isso se dá justo em seu momento mais apaixonante: o Carnaval. No dia nove de fevereiro de 1907, uma corruptela do verbo ferver – “O Frevo” – surge pela vez primeira em um jornal da cidade, o Jornal Pequeno. O termo tornar-se-ia sinônimo do Recife e a faria mundialmente conhecida.

Embora o Frevo tenha muitos aninhos a mais, o estabelecimento da data da sua criação não deixa de ser interessante. Mesmo que a questionemos (pois se o Frevo aparece em um jornal, é porque já existia nas ruas), não podemos deixar de comemorá-la. Cabe a nós a tarefa de permitir que, daqui a mais 100 anos, nossos netos possam comemorar os 200 anos do Frevo.

A longevidade do Frevo, enquanto fenômeno de massas, depende de múltiplos fatores. Trago à baila um deles, tema polêmico e que desagrada a alguns músicos e maestros, mas que tem de ser encarado de frente. Faço isso por amor ao nosso grandioso Carnaval e por ser Folião e Passista – esse último na medida do possível, logicamente.

Trata-se de questão aparentemente menor e que não está despertando o necessário interesse dos estudiosos: o andamento melódico do Frevo, principalmente do Frevo de Rua e Canção, que acelerou-se de forma perigosa. Infelizmente, até no Frevo de Bloco a coisa chegou, existindo alguns deles sendo executados como Frevo de Rua. Na verdade, o Frevo desembestou-se! Alguns atribuem o fato à pressa do mundo moderno: “tudo se apressou”, o que não deixa de ser parcialmente verdadeiro. Outros defendem esse fenômeno com o argumento de que o Frevo precisava e precisa modernizar-se. Mas será que tanta pressa é benéfica ao Frevo? Será que, daqui para frente, modernizar significa apressá-lo ainda mais? Para que, por quê? O andamento mais rápido do Frevo – o que pode ser entendido por alguns como modernização – já foi realizado por gigantes como Duda, Carlos Fernando, Michiles, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Bubuska, além dos baianos Gil, Caetano, Morais Moreira e Gal Costa. Para que correr mais do que eles? Será que tal “modernização” não pode se dá nos arranjos, nos acordes, nas improvisações, nos efeitos especiais, ou em outros tantos aspectos musicais como estão fazendo, por exemplo, Silvério Pessoa em “Micróbio no Frevo” e no belíssimo “Balanço do Frevo” de Braz Marques e Jackson do Pandeiro. Ou ainda no “O Recife é a Cara do Seu Carnaval”, do Bubuska, no “Lágrimas de Folião” com o Spok e nos muitos Frevos reinventados por Antônio Nóbrega.

O Frevo, música ligeira e difícil por natureza, está cada vez mais difícil de ser executado. Mesmo que virtuosos instrumentistas, no afã de mostrarem suas habilidades, consigam fazê-lo, a musicalidade sofre, pois se elimina a malícia, os breques, a sutileza musical do ritmo. Como esclarece Guerra Peixe “o dinamismo rítmico do Frevo (onde se nota a presença da síncope), não está na velocidade, mas na expressão melódica (tensão e afrouxamento) e na orquestração apropriada à melodia”. Além do veloz andamento melódico, incorporou-se, graças à tecnologia, a elevação do som a níveis insuportáveis, o que gera, por vezes, distorções desagradabilíssimas. Quem brincou bem junto a um trio, sabe muito bem do que estou falando. Até nos salões, não se consegue ouvir com nitidez um comentário de um amigo, ou uma declaração amorosa carnavalesca.

No desesperado andamento melódico do Frevo, há três situações diferentes. A primeira é a das orquestras que se apresentam em estúdios. Em geral, orquestras de elevado nível, cujos músicos podem ser comparados aos nossos “ronaldinhos”, “cacás” e “robinhos”, o que, somado à tecnologia, fazem com que a pressa se torne, aparentemente, menos ofensiva aos nossos ouvidos. Em segundo lugar, as orquestras de palco, às quais podemos dividi-las em vários sub-grupos, desde o citado acima, até orquestras improvisadas de última hora, por vezes de péssima qualidade. Portanto, a pressa será tanto mais maléfica, quanto menor for a qualificação da orquestra. Ressalte-se que, ainda aqui, a tecnologia pode promover pequenos milagres.

Porém, o problema maior ocorre com as orquestras de rua, aquelas que fazem o verdadeiro Carnaval de Pernambuco, já que o Frevo nasceu na e para a rua. Na sua grande maioria, são orquestras pequenas, de parcos recursos financeiros e musicais e que, infelizmente, tentam acompanhar o modismo de se tocar um “Último Dia”, um “Corisco”, um “Relembrando o Norte” ou mesmo um “Cabelo de Fogo” – para citar apenas alguns exemplos – mais rápido que um “heavy metal”. É aí que o Frevo joga a toalha. Alguns músicos amigos, grandes instrumentistas, me confidenciaram que estão “comendo” notas até nos palcos. Imaginem, então, o que deve estar sendo “devorado” nas ruas. Após quatro Frevos, os músicos de rua estão com a língua de fora. Já para os passistas, embora também seja desgastante, eles conseguem enrolar com mais facilidade. Não comem passos, mas os acomodam para não sofrerem tanto, já que, inclusive, executam poucos e quase sempre os mesmos passos.

Sim! A coisa reverberou, logicamente, na dança. O Passo, oriundo da capoeira, portanto cheio de ginga e de improvisos, vai perdendo suas características. Os novos passistas-bailarinos teimam em demonstrar que o ritmo não é só frenético: é elétrico e, para eles, quanto mais rápido dançarem melhores passistas serão. A maioria dos passistas profissionais está dançando quase que da mesma forma. Se colocarmos dez Frevos diferentes para serem dançados, cada passista os dançará praticamente com os mesmos passos. Sem as “paradinhas”, sem a malícia, sem o improviso, sem a leveza, que ainda podem ser observados na dança de foliões-passistas de rua mais antigos, espécie em extinção. Infelizmente, este é mais um elemento desagregador, porque inibidor de foliões da terra e, principalmente, de turistas, aos quais devemos dizer que qualquer folião pode “cair no Passo”, sem ter que se preocupar com os “atletas olímpicos” dos palcos. Palco que, inclusive, confere artificialidade à dança, já que a retira do seu habitat: a rua. Fique claro que não estamos falando da sua estilização, trajes, cores, das mudanças da Sombrinha – nosso maior símbolo – nem da sistematização e criação de novos passos. Estas são inovações que surgiram para embelezar a coreografia.

A rapidez do Frevo e do Passo ainda não os descaracterizaram completamente, mas até quando resistirão?

Viva os 101 Anos de Frevo. Parabéns para todos nós! Mas, para que se comemore os seus duzentos, trezentos…anos, muito temos a fazer agora.

Recife, 19 de janeiro de 2008

Luiz Gonzaga de Castro
Folião e Compositor Pernambucano
Diretor de Um Bloco Em Poesia

Quarta-feira de cinzas (2)

Eu tinha dado por encerrado este assunto, mas torno a posta-lo porque achei um texto muito bom.
Trata-se novamente do pesquisador Leonardo Dantas. Abaixo, um pequeno trecho. Para lê-lo completo é só clicar no link abaixo (leia mais).

Cancioneiro da Quarta-Feira
Leonardo Dantas Silva

Depois de um Carnaval, vem a quarta-feira ingrata, onde “tudo é cinzas!” A partir de então tem início a Quaresma que, no passado, era tempo de reflexão, jejum e abstinência completa de carne. Em cada Quarta-Feira de Cinzas, porém, resta no peito do verdadeiro folião uma saudade, uma lembrança do carnaval que passou, assim expressada por vezes com lágrimas e acalentadas pelos versos do próprio cancioneiro carnavalesco de Edu Lobo.

Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
Na praça ninguém pra cantar.

Leia mais

Quarta-feira de cinzas

Lula Cardoso Ayres, um dos homenageados no Carnaval de Recife

Galera,
Estou ainda com uma pesada infecção nas amígdalas que me deixa arriado sem ao menos conseguir falar. Mas tinha dito que escreveria algo sobre a quarta-feira de cinzas. Pois é, pra mim nada retrata melhor a quarta-feira de cinzas que as letras das duas músicas a seguir.
A primeira é de José Menezes e Geraldo Costa e chama-se Terceiro Dia.
A segunda é de Luiz Bandeira e chama-se Quarta-feira Ingrata.

4. Terceiro Dia LA-
(José Menezes – Geraldo Costa)
Na madrugada do terceiro dia
Chega a tristeza e
Vai embora a alegria
Os foliões vão regressando
E o nosso frevo, diz adeus a folia
A noite morre, o sol vem chegando
E a tristeza vai aumentando
A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval
13. Quarta Feira Ingrata
(Luiz Bandeira)
É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
Que eu vejo
O frevo acabar
Oh Quarta Feira ingrata
Chega tão depressa
Só pra contrariar
Quém é de fato
Bom pernambucano
Espera o ano
Pra cair na brincadeira
Esquece tudo
Quando cai no frevo
E no melhor da festa
Chega a Quarta Feira.
Um grande abraço a todas e todos. Acho que com esta postagem encerro, por enquanto, o assunto. Até o próximo carnaval!

Festa da folia nas ladeiras de Olinda. E tome frevo!

Postagem relâmpago. Passo apenas para deixar algumas imagens deste carnaval e um texto muito interessante escrito pelo Leonardo Dantas sobre a história do Lança-Perfume no carnaval brasileiro. Não sabe o que é Lança-Perfume? Clica Aqui. E o Leonardo Dantas? Não conhece? Clica Aquii

Saudades do lança-perfume

Saudades do lançaperfume
Leonardo Dantas Silva

O lançaperfume foi a grande invenção do Carnaval Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio dar uma aura toda especial às festas de momo de norte e sul deste imenso país do carnaval. Apareceu com grande publicidade, sendo distribuído em três apresentações — dez, trinta e sessenta gramas, pela Casa Davi do Rio de Janeiro. Fabricadas pela Rodo Suíça, aquelas ampolas de cloreto de etila, especialmente perfumadas, perfumaram os nossos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proibida por decreto do presidente Jânio da Silva Quadros.
Em 1911 eram consumidas no Brasil 300 libras do produto e só a Rodo-Suíça para aqui exportara a elevada quantia de 4.500 contos de réis ! Tal mercado veio a despertar a atenção daquela empresa, que logo enviou ao Brasil um seu representante, sr. J. A. Perretin, a fim de assistir às festas do carnaval do Rio de Janeiro daquele ano. Em entrevista à Gazeta de Notícias, transcrita parcialmente por Eneida, o sr. Perretin declarou: “Um povo que faz um carnaval como este é o povo mais alegre do mundo”.
Denominava-se de lançaperfume a bisnaga metálica ou de vidro, para uso nos festejos carnavalescos que, carregada de éter perfumado e à base de ar comprimido, lança seu conteúdo a relativa distância quando destampada.
A novidade caiu no gosto dos foliões brasileiros. O mercado consumidor crescia a cada ano, motivando o aparecimento de novas marcas — Geyser, Nice, Meu coração, Pierrot, Colombina, etc. —, algumas delas assinadas pelos célebres perfumistas Lubin e Pinaud. Até o Recife veio dispor de uma fábrica de lançaperfumes, Indústria e Comércio Miranda Souza S.A., localizada na Rua da Aurora, responsável pela produção das marcas Royal e Paris.
Um inconveniente, porém, acompanhava o produto e era causa de constantes acidentes entre os seus usuários: os recipientes que continham o éter perfumado sob pressão eram de vidro. Em 1927, objetivando sanar tal deficiência, a Rodo lançou no mercado o seu lançaperfume metálico. Apresentado em invólucros de alumínio dourado, o novo produto recebeu a marca Rodouro, o que não impediu que se continuasse a produzir com preços inferiores lançaperfumes em recipientes de vidro. Naquele ano o consumo do produto atingia, segundo a imprensa carioca, a casa das 40 toneladas e no Recife, anos depois, as suas virtudes eram assim anunciadas: Um perfume suave eu espalho, / Sou distinto, perfeito, não falho. / Sou metal e no chão não estouro. / Sou o lançaperfume Rodouro.
O que era brinquedo romântico, inofensivo e barato, passou a ter outra destinação. Segundo denúncia da imprensa carioca, no carnaval de 1928, o conteúdo do lançaperfume passou a ter objetivos outros: “… o éter fantasiado de lançaperfume é sorvido com escândalo pelo carnaval. No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas do terrível entorpecente. Essa quantidade de anestesia daria para abastecer todos os hospitais do mundo”.
No Recife, o hábito de aspirar lança-perfume já aparece no romance de Mário Sette, Seu Candinho da Farmácia, lançado em 1933 pela Editora Nacional, que assim comenta na boca de um dos personagens: “O cheiro de éter perfumado misturado ao cheiro das mulheres fazia rodar a gente…”
Nas eleições presidenciais de 1960, o sr. Jânio da Silva Quadros vem vencer com uma imensa maioria de votos o general Henrique Teixeira Lott, assumindo o cargo de supremo mandatário da República do Brasil, em 31 de janeiro do ano seguinte. No seu conturbado mandato de 206 dias, Jânio inaugura o sistema de governar através dos chamados “bilhetinhos”, tendo emitido 1.534 deles, versando sobre os mais diversos assuntos. Preocupado com o saneamento moral do país, legislou sobre trajes de misses, brigas de galo, sessões de hipnotismo e, como não poderia deixar de acontecer, veio proibir “a fabricação, o comércio e o uso do lança-perfume no território nacional”, através do Decreto n º 51.211, de 18 de agosto de 1961, cujos efeitos atingem os festejos carnavalescos até os nossos dias.
A sua proibição, porém, deixou saudades em todos os foliões que dele faziam uso de maneira romântica, como forma de aproximação ou de convívio, na alegria do carnaval, enchendo de perfume e povoando com a sua aura inesquecível as nossas ruas e salões.
Como no Cordão da Saideira, frevo composto por Edu Lobo: “Hoje não tem dança / não tem mais menina de trança / nem cheiro de lança no ar / Hoje não tem frevo / Tem gente que passa com medo / Na praça ninguém pra cantar…”.

Fontes: http://www.jcimagem.com.br/carnaval2007 / http://pt.wikipedia.org / http://www.revivendomusicas.com.br/

O Frevo hoje

E ai pessoal,
Estou aproveitando um tempinho aqui pra escrever um pouco mais sobre frevo. Esta segunda postagem será composta mais por imagens que por texto.

Para alguns o frevo ainda é algo que está limitado, ultrapassado e que sua tendencia é o desaparecimento. Grave engano. O Frevo em sido ‘terreno’ de muita renovação e de muitas experiências. Creio até que temos visto neste início de século uma onda de ascensão muito boa. E pra mim a tendência é melhorar.

Bom, e não tem como falar em renovação do frevo sem falar em Spok e na sua fantástica orquestra. Sobre ele nem vou me alongar. Para ler sobre clica aqui.
Abaixo, dois vídeos. Um, é uma pequena amostra do som da galera. O outro, uma entrevista do maestro Spok para o JC, falando um pouco de sua trajetória:

O vídeo abaixo é com o pessoal da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, que inclusive estará hoje no palco do marco zero, na abertura.

E por fim, um video com o Silverio Pessoa. Numa futura postagem coloco um pouco sobre a carreira desse grande artista pernambucano. Alceu Valença tambem canta no vídeo.

Queria escrever mais sobre esse tema, pois há muito a se falar, mas deixo para um outro momento. Abaixo, imagens do frevo no Recife Antigo.

Entramos agora de fato num clima de magia que é o carnaval. Muita alegria, muita farra, até a quarta-feira de cinzas. Ahh. Pretendo escrever tambem uma postagem sobre o que significa a quarta-feira de cinzas para o folião. Agora é hora de curtir! Bom Carnaval a todas e todos!