Quem quer ser o candidato do Lula?

As eleições de 2010 continuam sem o mínimo de empolgação e ânimo. Mas queria registrar apenas uma percepção ao acompanhar um trecho do guia eleitoral pelo rádio (não tenho visto tv, então pode ser diferente).
Quem vai ficar com Mary?
O fato é que alguém um pouco mais desavisado, ao escutar a propaganda do José Serra, pode achar tranquilamente que este jovem senhor é o candidato do Lula, tamanha é a associação que tentam criar entre eles. Impressiona-me tanta falta de sentido ou qualquer raciocinio logico na campanha deste presidenciavel. 
Serra não tem não projeto, não tem propostas e nem criticar sabe, pelo jeito.
Situação hilária. Na mesma lógica segue Jarbas Vasconcelos por aqui, que, aliás, deve levar uma goleada histórica. Pesquisa do Vox Populi de hoje dá Eduardo Campos com 71% x Jarbas 19%. 
Apesar de acreditar numa falsa polarização entre estes supostos projetos divergentes, tanto em nível nacional, quanto estadual, o que mais me alegra é imaginar que a lapada que Serra e Jarbas vão levar deve ser gigantesca.

Torcida do Sport Club do Recife


Minha consciência está de prova: tenho evitado (nem sempre conseguido) escrever coisas sobre futebol. No máximo 140 caracterezinhos no twitter. 

Mas uma pesquisa divulgada nos últimos dias nos trouxe informações, que, embora esperadas, comprovam a força da torcida do Sport.

A pesquisa é esta, do IBOPE

Objetivamente, os dados são estes:
O Sport tem hoje a 11ª maior torcida do país. Consolida-se como a maior torcida do Norte-Nordeste-Centro-Oeste, inclusive, numericamente maior que times afagados pela mídia, como Botafogo e Fluminenses.
Bem… alguns rubro-negros podem dizer que tal resultado seria esperado. É verdade. Mas surgiu uma novidades, ao menos para mim, muito interessante:
Entre os 20% mais pobres do país, o Sport tem a 6ª maior torcida! Um verdadeiro clube de massas!
Mas não é só isso, a la Polishop. Entre os menores de 16 anos, o Sport é a 8ª maior torcida do Brasil! 

Excelentes dados que nos mostram que é possível vencer batalhas duríssimas frente parabólicas, Globo, etc etc etc, como somos obrigados a enfrentar cotidianamente. 

A postagem era, realmente, só para compartilhar com os poucos que ainda não tinham visto resultados tão vistosos!

Plebiscito pelo Limite da Terra

Tudo tem limite

Frei Betto
Entre 1º e 7 de setembro o Fórum Nacional da reforma agrária e Justiça no Campo promoverá, em todo o Brasil, o plebiscito pelo limite da propriedade rural. Mais de 50 entidades farão da Semana da Pátria e do Grito dos Excluídos, celebrado todo 7 de setembro, um momento de clamor pela reforma fundiária em nosso país.
Vivem hoje na zona rural brasileira cerca de 30 milhões de pessoas, pouco mais de 16% da população do país. O Brasil apresenta um dos maiores índices de concentração fundiária do mundo: quase 50% das propriedades rurais têm menos de 10ha e ocupam apenas 2,36% da área do país. E menos de 1% das propriedades rurais (46.911) têm área acima de 1 mil hectares cada e ocupam 44% do território (IBGE, 2006).
As propriedades com mais de 2.500ha são apenas 15.012 e ocupam 98,5 milhões de hectares: 28 milhões de hectares a mais do que quase 4,5 milhões de propriedades rurais com menos de 100ha.
Diante desse quadro de grave desigualdade, não se pode admitir que imensas propriedades rurais possam pertencer a um único dono, impedindo o acesso democrático à terra, que é um bem natural, coletivo, porém limitado.
O objetivo do plebiscito é demonstrar ao Congresso Nacional que o povo brasileiro deseja que se inclua na Constituição um novo inciso limitando a propriedade da terra princípio adotado por vários países capitalistas a 35 módulos fiscais. Áreas acima disso seriam incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.


O módulo fiscal serve de parâmetro para classificar o tamanho de uma propriedade rural, segundo a Lei 8.629 de 25/2/93. Um módulo fiscal pode variar de 5ha a 110ha, dependendo do município e das condições de solo, relevo, acesso etc. É considerada pequena propriedade o imóvel com o máximo de quatro módulos fiscais; média, 15; e grande, acima de 15 módulos fiscais.
Um limite de 35 módulos fiscais equivale a uma área entre 175ha (caso de imóveis próximos a capitais) e 3.500ha (como na região amazônica). Apenas 50 mil entre as 5 milhões de propriedades rurais existentes no Brasil se enquadram nesse limite. Ou seja, 4,950 milhões de propriedades têm menos de 35 módulos fiscais.
O tema foi enfatizado pela Campanha da Fraternidade 2010, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Todos os dados indicam que a concentração fundiária expulsa famílias do campo, multiplica o número de favelas e a violência nos centros urbanos. Mais de 11 milhões de famílias vivem, hoje, em favelas, cortiços ou áreas de risco.
Nos últimos 25 anos, 1.546 trabalhadores rurais foram assassinados no Brasil; 422 presos; 2.709 famílias expulsas de suas terras; 13.815 famílias despejadas; e 92.290 famílias envolvidas em conflitos por terra. Foram registradas ainda 2.438 ocorrências de trabalho escravo, com 163 mil trabalhadores escravizados.
Desde 1993, o Grupo Móvel do Ministério do Trabalho libertou 33.789 escravos. De 1.163 ocorrências de assassinatos, apenas 85 foram a julgamento, com a condenação de 20 mandantes e 71 executores. Dos mandantes, somente um se encontra preso, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes da eliminação da irmã Dorothy Stang, em 2005.
Tanto o plebiscito quanto o abaixo-assinado visam a aprovar a proposta de emenda constitucional (PEC 438) que determina o confisco de propriedades onde se pratica trabalho escravo, bem como limites à propriedade rural. As propriedades confiscadas seriam destinadas à reforma agrária.
Embora o lobby do latifúndio apregoe as maravilhas do agronegócio, quase todo voltado à exportação e não ao mercado interno, a maior parte dos alimentos da mesa do brasileiro provém da agricultura familiar.
Ela é responsável por toda a produção de verduras; 87% da mandioca; 70% do feijão; 59% dos suínos; 58% do leite; 50% das aves; 46% do milho; 38% do café; 21% do trigo.
A pequena propriedade rural emprega 74,4% das pessoas que trabalham no campo.
O agronegócio, apenas 25,6%. Enquanto a pequena propriedade ocupa 15 pessoas por cada 100ha, o agronegócio, que dispõe de tecnologia avançada, somente 1,7 pessoa.
Mais informações e para assinar abaixoassinado: www.limitedaterra.org.br e www.limitedaterra.org.br

Florestan Fernandes segue vivo

Do sítio do MST, homenagem ao mestre Florestan Fernandes
Mestre Florestan Fernandes

Há 15 anos, no dia 10 de agosto de 1995, morria Florestan Fernandes, uma referência continental no desenvolvimento metodológico e científico da sociologia.
Paulista, nascido em 1920, filho de migrantes portugueses, deixou mais de 50 obras escritas. Foi deputado federal constituinte, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, e professor rigoroso.
De origem humilde, fez de tudo na vida, trabalhando e ajudando na sobrevivência familiar, até romper as barreiras elitistas da USP (Universidade de São Paulo) e se tornar seu aluno, professor e mais tarde um mestre de referência.
Sempre manteve a coerência ideológica e compromisso com a classe trabalhadora. Punido pela ditadura militar, amargou o exílio. Voltou ao Brasil e continuou a luta em defesa da classe.
É sem duvida o mais importante intelectual orgânico do século 20. Bebeu na fonte dos clássicos e estudou com profundidade as classes sociais na sociedade brasileira.
Defendeu com coragem a necessidade de uma verdadeira revolução social, que pudesse construir uma sociedade com justiça e igualdade em nosso país.
O povo brasileiro, a classe trabalhadora, os movimentos sociais e os intelectuais orgânicos – todos os que desejamos mudanças na sociedade brasileira – ficamos de luto.
Seu legado, no entanto, nos anima a continuar a luta.
Florestan defendeu como ninguém a importância da educação, da formação da consciência de classe, do acesso ao conhecimento como uma necessidade da classe trabalhadora para se libertar da humilhação, discriminação, opressão e da exploração imposta pelos ricos e poderosos.
O MST se orgulha de ser um dos seus seguidores e de ter apreendido muito com seus escritos e com seu exemplo. Por isso nossa escola nacional de formação de quadros, localizada em São Paulo, se chama Escola Nacional Florestan Fernandes.
Florestan Fernandes segue vivo, por sua obra e exemplo de vida.
“Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres”!
São Paulo, 10 de agosto de 2010.
Secretaria Nacional do MST

A Tomada da Reitoria

Ofereço-lhes mais um dos sempre bons artigos do professor e amigo Lurildo Saraiva. Tenho certeza que gostarão, assim como aconteceu com o último. A propósito, quem não o viu, pode acessá-lo clicando aqui

Governador BIÔNICO Nilo Coelho


A tomada da Reitoria

Em 2 de outubro de 1968 fui avisado que no dia seguinte, uma quinta-feira, iríamos falar com o Reitor Murilo Guimarães, de uma forma ou de outra. A situação difícil e precária do hospital Pedro II nos exigia uma ação radical, com provável ocupação da Reitoria. Na verdade, houve séria discussão sobre essa manifestação, os que estavam ligados ao “Partidão” foram contra, a exemplo de Carmem Chaves, mas venceu na votação a linha adotada pela Ação Popular, a qual se alinhava a liderança do DA. Nesse ano, já estava um tanto afastado da diretoria do DA, então comandado por Marcos Burle de Aguiar, mas mesmo no curso clínico, me mantinha a par dos acontecimentos, apoiava e participava da luta.

A Reitoria da UFPE ocupava prédio situado em frente à Sétima Região Militar, atual representação do Ministério da Educação, nas cercanias do IV Exército: local inapropriado para qualquer manifestação estudantil, no ano em que, como forças antípodas, o governo militar e o movimento estudantil, orientado pela UNE, estavam cada vez mais radicais em suas posições. Numa atitude que me seria depois muito útil – álibi usado na minha defesa do decreto-lei 477 – pedi ao colega Roberto Guimarães que assinasse a minha presença em aula de Obstetrícia, que ocorreria na tarde do dia programado.




Na quinta feira nos dirigimos em grupos para a sede da Reitoria, onde pouco a pouco chegamos, e literalmente invadimos o gabinete do Professor Murilo, que se encontrava presidindo reunião administrativa. O diálogo que ele manteve com os líderes Marcos Burle, Luciano Siqueira, Humberto Câmara Neto e Alírio Guerra foi áspero, rude, as coisas pareciam tomar curso imprevisível: subitamente, levanta-se e tenta sair da sala, no que foi impedido, sendo-lhe comunicado que estava detido, até que resolvesse o problema do Hospital das Clínicas. Ele sentou-se pálido e enraivecido: o Chefe de Gabinete avisa que aquela era coisa gravíssima e iria comunicar às autoridades policiais a prisão do Reitor.

Estávamos às 10 horas da manhã. Humberto propõe em discurso emocionado – sempre a segurar o aro direito dos seus óculos, como lhe era característico – a realização de assembléia na presença de autoridades universitárias: lembrou que o Reitor era o representante maior da ditadura na UFPE, e se era assim, poderia falar diretamente com o Ministro da Educação e exigir a liberação de verbas para o velho HC.

 (Naquele instante, pensei que alguma coisa estava errada, nós lutávamos por liberdade e éramos contra “prisões”, o acirramento da luta poderia nos fazia perder o sentido maior que era o de opor-se à ditadura: até onde iríamos?). 

A assembléia corria, alternando- se vários colegas, mas sempre acordando em impedir a saída do Reitor do recinto, e manter posições.

Hora do almoço. O Professor Murilo se recusa a alimentar-se, inclusive ingerir um copo de leite que lhe foi sugerido: correu o boato de que ele tinha úlcera péptica, então tratada com dieta láctea, fundamentalmente. O telefone toca sem parar: soubemos que telefonaram ao gabinete do Reitor o Governador biônico Nilo Coelho e o Comandante do IV Exército. A coisa estava ficando preta: houve indicação de que a Reitoria seria invadida pela Polícia Militar, muito embora fosse Instituição Federal.

Às 15 horas, o Exército cerca o prédio. O medo aumenta. A liderança exige a presença do Governador. O Coronel comandante do destacamento avisa que iria “bombardear” o prédio: seria verdadeira essa loucura? 

Chega o Governador e se reúne com os líderes: ele exige a desocupação do prédio, mas a decisão está estabelecida: só sairíamos se houvesse compromisso das autoridades com a liberação de verbas para o HC. O Dr. Nilo assume a causa, afirma que falará com o ministro Jarbas Passarinho, comprometendo-se a impedir prisões de estudantes na saída da Reitoria. A decisão foi levada à nova assembléia, que decide sair – a esta altura, 16 horas ou mais, estávamos todos fatigados, com fome, sob enorme estresse – do gabinete víamos os soldados do Exército com ninhos de metralhadora e viaturas da RP em profusão… 

Em cena a lembrar personagens fellinianos, o Governador, que era muito gordo, ficou no portão do prédio, dando “proteção”. Eu e outros desconfiamos daquilo tudo: os governadores biônicos eram figurantes, em nada mandavam em questões de caráter político na estrutura policial que comandava o país na gestão Costa e Silva.
Eu sabia que Dona Eunice Robalinho, mãe do Professor Guilherme Robalinho, que nos apoiava abertamente na Medicina, morava em apartamento térreo contíguo, e imaginei saltar o muro alto que separava os dois prédios. Avisei aos colegas, e de fato os que optaram em sair pelo portão, entre eles Josélia Maria e Heli Leonardo de Castro, entraram em fria: foram todos presos por agentes do DOPS nas ruas adjacentes e levados à Secretaria de Segurança para o fichamento habitual, se já não o fossem; eu e outros saltamos o muro alto: como conseguimos saltar, não imagino, o medo nos torna mais altos, parece. Como esperado, Dona Eunice nos protegeu na sua casa, e pediu à Marina, sua governanta, que nos alimentasse. Eram aproximadamente 17:30 horas, mas só saímos do seu apartamento após a retirada de todo o arsenal repressivo das ruas.

Na sexta-feira, houve assembléia estudantil no auditório central da Faculdade, na presença do Governador. Colegas de outras unidades da UFPE compareceram, e emprestando apoio moral, o Padre Henrique. A assembléia foi tumultuada – não faltaram vaias contra Nilo Coelho, obrigado a soltar os colegas que ainda permaneciam presos -, mas complementava a vitória que havíamos obtido no dia anterior.

Seria a “tomada da Reitoria” – assim ficou chamada essa manifestação estudantil – uma vitória de Pirro? Talvez, ela estaria baseando muitas das acusações que o Comandante do IV Exército, General Alfredo Malan, dirigiu à Faculdade de Medicina, instruindo as cassações de estudantes fundamentadas no temível AI5, no ano seguinte. Naquele momento, entretanto, tal dúvida não estava em nossos espíritos, a resistência estudantil à opressão agia assim.